6 de setembro de 2011

Martha Vasconcellos, Miss Universo 1968, é exemplo de humanidade

Martha Vasconcellos, 63 anos, para a história, foi a segunda brasileira a receber o título de Miss Universo.
Para centenas de brasileiras vítimas de violência doméstica nos Estados Unidos, foi apenas Martha, nos seis anos em que ajudou a combater esse tipo de crime naquele país. “Ninguém me vê como Miss Universo”, diz a baiana

Em 1968, após ser coroada Miss Universo, Martha decidiu não seguir carreiras almejadas hoje por muitas, como modelo ou atriz. Antes dela, apenas a gaúcha Ieda Maria Vargas conquistou o título de mais bela do mundo, em 1963.
Casou-se logo após o término do reinado de miss, formou-se psicóloga. Anos depois, partiu para os Estados Unidos, onde fez mestrado em Saúde Mental e Aconselhamento pelo Cambridge College. Em setembro deste ano, decidiu retornar a sua terra natal, Salvador, depois de 11 anos morando nos Estados Unidos. Já embarcou as malas.

“Cheguei com duas malas na mão para fazer um curso, não pretendia ficar. Conheci o Joãozinho [como chama o companheiro John Riely, que morreu em janeiro deste ano]. Quando terminei o curso fui trabalhar. Mas agora, com a morte dele, perdeu para mim o sentido ficar aqui. Minha família está toda aí no Brasil, tenho netos, de quatro, três e de um aninho. Se ele estivesse vivo...”, diz.
Martha afirma ter acabado de pedir demissão de uma organização sem fins lucrativos em Boston, da qual foi supervisora até este mês, a Massachusetts Alliance of Portuguese Speakers. A ONG trabalha com vítimas de violência doméstica que falam português, a grande maioria, brasileiras. Em suas próprias palavras, trabalhava “para defender aqueles que não têm voz”.

Mais de quarenta anos depois do concurso, é desse trabalho que afirma ter o maior orgulho. “Foi muito melhor receber esses prêmios. Algo que não foi só desfilar porque era bonitinha, porque herdei bons genes da minha família. Esse aí foi meu trabalho, foi meu esforço”, afirma ela sobre os três prêmios recebidos pelo esforço --de uma entidade americana de defesa à mulher, outro de uma associação ligada a imigrantes, e o mais recente intitulado “heróis do ano”.
A baiana, que entrou para o mundo dos concursos de beleza por "rebeldia de adolescente", diz ainda considerar não ser uma exceção entre as misses. Sua grande amiga Lúcia Petterle, única brasileira vencedora do Miss Mundo, hoje é médica. “Miss é uma coisa passageira, se quiser ficar presa numa história de concurso de beleza a vida toda, carregar isso como uma estrela no seu peito, vem a idade, vêm as impossibilidades. Como é que pode se agarrar nisso? A beleza passa, acaba”, diz.

Martha conta que o trabalho era “puxado”. Em julho, foram 61 pessoas atendidas. A média por mês eram 30, 40 atendimentos. “Violência doméstica tem uma vítima quase que toda semana no estado de Massachusetts. Minha jornada era de 35 horas por semana, às vezes eram 10, 12 horas por dia, e não era paga por isso. Mas eu nunca deixei de atender.” Antes, trabalhava com portadores de HIV e ex-viciados em drogas. Ainda assim, ela diz acreditar ser difícil continuar o que faz no Brasil. “Eu não teria o respaldo que tenho aqui, da polícia, dos juízes. Aqui eu tenho muito apoio.”

O título de Miss Universo chegou até a atrapalhar, conta a psicóloga. “Não tinha tempo pra isso não”, diz sobre as vezes em que era procurada para tirar fotografias em meio ao expediente. “Minhas clientes não sabem. Isso atrapalhava muito. Vinham querer tirar fotografia do nada. Marcavam como se fossem vítimas. Eu tinha lá tempo para isso? Eu estava lidando com a vida e com a morte das pessoas todos os dias. Isso atrapalhava a minha vida, não era uma brincadeira.”

No Brasil, diz a ex-miss, o tratamento é diferente. “Ninguém nem fala nisso. Minha família nunca me olhou assim. Perguntavam para a minha filha: que tal ser filha de Miss Universo? Ela respondia: minha mãe é minha mãe, que nem a sua é a sua. Não tenho amigo de tietagem. Sou prima, irmã, vizinha, amiga da escola, ninguém me vê como a Miss Universo.”

Para Martha, o concurso perdeu o prestígio ao longo dos anos. Apesar disso, ela diz ser apoiadora da competição. “Acho uma coisa muito positiva. Abrem-se portas e janelas para a pessoa que ganha, ela pode tomar vários rumos na sua vida. Pode trabalhar em cinema, são mil oportunidades. Fora as oportunidades de viagem, conhecer outras culturas. Isso engrandece muito.”
Já sobre os tempos em que a beleza era mais natural, ela diz acreditar na evolução. “Eu acho as meninas de hoje lindíssimas. Eu fico impressionada de ver, todo mundo super malhado. É tão diferente, eu acho super legal, não sou nada contra, é a evolução do tempo mesmo. Antes não tinha computador, hoje tem um GPS no meu carro que vou para onde eu quiser. A gente tem que evoluir com as coisas. Mas se eu participasse hoje, eu não ganhava de jeito nenhum”, brinca. “Aí a pessoa tem que tirar proveito disso e tem que pensar o que quer da vida.”

Fonte: G1

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